- Mas nós vamos mesmo discutir isso de novo, Marcela?
- Por que não? O que é que você esconde, hein?
- Já disse que nada! Que saco. Mulherzinha insistente...
- "Mulherzinha"? Tá vendo?! Cansei dos seus "inhas".
- Cansou mesmo? Que bom.
- É definitivo, isso?
- Isso o quê?
- Esse "Que bom".
- Entenda como quiser. De nada adianta eu dizer que não, você vai distorcer tudo mesmo.
- Distorcer? Tá, não digo mais nada.
- Vamos parar essa discussãozinha que não vai nos levar a lugar nenhum?
- Porque você nunca pode ir direto ao ponto?
- Ué, estou indo direto ao ponto agora. Quer que eu seja mais claro?
- Por favor.
- Você me tira do sério sempre, desconfia, distorce, dá sua versão dos meus fatos. Eu não aguento mais! Qual é a sua? Você gosta disso? Te excita?
- Fica lindo quando bravo...
- Estou exausto.
- ...
- Não vai dizer nada?
- O que quer que eu diga?
- Cansou?
- Eu te amo.
- O quê?
- Eu te amo.
- Ama?
- Amo. Muito.
Ele a abraçou e pensou que jamais a entenderia, mas seria melhor assim. Embora fosse doentio, não saberia como conviver com ela se fosse diferente; no fundo gostava daqueles joguinhos emocionais. Amava-a assim. Um dia se cansaria definitivamente do ciúme, da desconfiança e de todo o resto, mas enquanto isso não acontecia, era melhor parar de pensar e de tentar compreendê-la. Aquela mulherzinha era para a convivência, não para ser entendida. Beijou-a, resignado.
13 fevereiro 2007
Love, love, love
Porque no final das contas, o amor nada mais é que uma prostituta velha que já perdeu o critério e a clientela, que sempre se encanta com o primeiro que lhe sorri na esperança de que aquele vá render alguma graninha. Bom, no caso do amor, um sentido pra vidinha vazia e sem sal que a gente leva até ele aparecer. E foder absolutamente tudo.
06 fevereiro 2007
(des)aparecer
Não o via há mais de um ano; na verdade pensava que não o encontraria nunca mais até aquela noite. Ele mantinha o mesmo jeito tímido de quando se conheceram e o mesmo sorriso sem-graça, que continuava a não inspirar nenhum tipo de pensamento nela. Cumprimentaram-se, ele a beijou, ela sorriu. Perguntou como ela estava, observou que há tempos não se viam. Ela estava completamente diferente da última vez, havia um brilho diferente em seu olhar, como se procurasse algo. Olhos de caçadora, pensou. Ela perguntou como estavam as coisas. Em seu íntimo, torcia para que ele desse qualquer resposta curta e genérica para ela encerrar a conversa com algum comentário banal. Foi o que ele fez, disse que tudo estava bem. Ela ficou aliviada e sorriu. Ele emendou dizendo que ela nunca mais havia aparecido. Ele havia deixado de ser tão previsível, pensou. Ela disse que andava sem tempo, que nunca mais tinha aparecido mesmo e sorriu. Pensava consigo que nunca mais apareceria mesmo, embora houvesse uma discreta e boa recordação do tempo que passaram juntos - somente braços fortes; no mais ele não a interessava. Ele se despediu olhando nos olhos dela, convidando-a a aparecer. Achava-a intrigante, tinha vontade de repetir a dose. Ela desviou o olhar, o beijou, disse que apareceria sim. Com um sorriso, deu-lhe as costas. E desapareceu para sempre.
Encontros
Depois de várias vodkas, Laís foi parar naquele inferninho. Naquele dia ele estava assustadoramente lotado; ela tinha a nítida impressão de que ia perder o ar a qualquer momento no meio daquele monte de corpos se esbarrando, roçando uns nos outros. Um odor fétido de esgoto se espalhava pelo ambiente, o que tornava a sensação claustrofóbica maior ainda; ela morreria e apodreceria ali mesmo. Talvez depois de alguns dias alguém achasse sua carne pútrida ali, ou talvez ninguém a notasse, no meio de tantos corpos que provavelmente putrificariam ali também.
As pessoas ali presentes riam umas para as outras, um riso quase diabólico, e dançavam. A música em si não importava, a coreografia era sempre a mesma independentemente da batida; o importante era o encontro dos corpos, as peles colando pelo suor, as bocas roçando umas nas outras, o encontro de hálitos de bebida azeda e cigarro.
Vagou perdida por ali durante um tempo incerto, tateando corpos, procurando um copo, zonza pelo barulho. Num dado momento, sentiu uma mão gelada puxando-a pela cintura com força. Sem se virar, sentiu um corpo masculino atrás de si e uma língua áspera percorrendo a nuca nua. Tentou se desvencilhar daquele corpo, sem sucesso. Era mais forte que ela e parecia que quanto mais força fazia, mais ele a dominava. Numa última tentativa de se desvencilhar e ver o rosto de quem a dominava, mordeu seus braços e sentiu seu sangue na boca, o gosto na língua, um misto do salgado do suor e de um amargo desconhecido que jamais lembraria o sabor de sangue. Sentiu suas pernas bambearem - sua resistência acabou ali -, o veneno do corpo dele a tinha tomado por inteiro e ela desfaleceu nos braços dele.
----
Ele carregou aquele corpo morto nos braços por horas a fio, numa caminhada cega e sem destino aparente. Naquele inferninho ele havia deixado todo o seu passado, e o dela também. Aquele lugar nunca mais existiria para nenhum dos dois; a partir do momento em que achasse o destino, todo o esboço de vida anterior se apagaria da memória dele; a dela desapareceria junto com o efeito do veneno.
Sentiu os pés doerem, sangravam. Mas era reconfortante saber que os braços ainda eram fortes o suficiente para carregá-la. Apressou o passo, ela começava a dar sinais de que logo voltaria a si.
----
Laís não sabia como havia chegado ali, mas estava num barzinho com as amigas. Elas riam desse fato, diziam que ela havia bebido demais naquela noite, mas que logo ela se lembraria. E se arrependeria, como todos os bêbados fazem. Ela sorriu para as meninas e resmungou baixinho alguma coisa incompreensível, sua cabeça latejava.
Decidiu se levantar da mesa e ir até ao banheiro, talvez lavar o rosto aliviasse um pouco. Antes de se levantar, observou bem o lugar. Era agradável, o ambiente iluminado, a atmosfera aconchegante, um saxofonista tocando no palco improvisado no meio das mesas. As pessoas conversavam animadamente, sorriam. Alguns casais se arriscavam a dançar ao som envolvente na pista. Sentiu-se animada e levantou-se em direção ao banheiro. No meio do caminho sentiu uma tontura, e para não cair, apoiou-se em uma cadeira. Sentiu uma mão macia segurando sua cintura, mas não teve forças para virar-se e ver o dono daquela mão. Teve a sensação de estar segura ali, naqueles braços que agora envolviam sua cintura. No momento em que viu as cicatrizes naqueles braços, sentiu a respiração dele em sua nuca. Sorriu. Sabia que havia encontrado a pessoa certa, mas não sabia o porquê. Virou-se: ele sorria e olhava com curiosidade para ela. Conversaram, seu nome era Marcelo e ele a estava observando desde a hora em que chegou lá. Tinha a impressão de que já a conhecia e tinha ido atrás dela justamente para perguntar isso quando ela sentiu-se mal. Ela o agradeceu e disse que o mal-estar já havia passado. Ocuparam uma mesa vazia e continuaram conversando animadamente noite adentro; ela até esqueceu as amigas, que saíram dali sem dizer palavra para não atrapalhar o momento dela. Ele a levou para a casa dele, passaram o resto da noite juntos. A primeira noite do resto da vida de ambos, que a partir dali se tornou uma só vida.
As pessoas ali presentes riam umas para as outras, um riso quase diabólico, e dançavam. A música em si não importava, a coreografia era sempre a mesma independentemente da batida; o importante era o encontro dos corpos, as peles colando pelo suor, as bocas roçando umas nas outras, o encontro de hálitos de bebida azeda e cigarro.
Vagou perdida por ali durante um tempo incerto, tateando corpos, procurando um copo, zonza pelo barulho. Num dado momento, sentiu uma mão gelada puxando-a pela cintura com força. Sem se virar, sentiu um corpo masculino atrás de si e uma língua áspera percorrendo a nuca nua. Tentou se desvencilhar daquele corpo, sem sucesso. Era mais forte que ela e parecia que quanto mais força fazia, mais ele a dominava. Numa última tentativa de se desvencilhar e ver o rosto de quem a dominava, mordeu seus braços e sentiu seu sangue na boca, o gosto na língua, um misto do salgado do suor e de um amargo desconhecido que jamais lembraria o sabor de sangue. Sentiu suas pernas bambearem - sua resistência acabou ali -, o veneno do corpo dele a tinha tomado por inteiro e ela desfaleceu nos braços dele.
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Ele carregou aquele corpo morto nos braços por horas a fio, numa caminhada cega e sem destino aparente. Naquele inferninho ele havia deixado todo o seu passado, e o dela também. Aquele lugar nunca mais existiria para nenhum dos dois; a partir do momento em que achasse o destino, todo o esboço de vida anterior se apagaria da memória dele; a dela desapareceria junto com o efeito do veneno.
Sentiu os pés doerem, sangravam. Mas era reconfortante saber que os braços ainda eram fortes o suficiente para carregá-la. Apressou o passo, ela começava a dar sinais de que logo voltaria a si.
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Laís não sabia como havia chegado ali, mas estava num barzinho com as amigas. Elas riam desse fato, diziam que ela havia bebido demais naquela noite, mas que logo ela se lembraria. E se arrependeria, como todos os bêbados fazem. Ela sorriu para as meninas e resmungou baixinho alguma coisa incompreensível, sua cabeça latejava.
Decidiu se levantar da mesa e ir até ao banheiro, talvez lavar o rosto aliviasse um pouco. Antes de se levantar, observou bem o lugar. Era agradável, o ambiente iluminado, a atmosfera aconchegante, um saxofonista tocando no palco improvisado no meio das mesas. As pessoas conversavam animadamente, sorriam. Alguns casais se arriscavam a dançar ao som envolvente na pista. Sentiu-se animada e levantou-se em direção ao banheiro. No meio do caminho sentiu uma tontura, e para não cair, apoiou-se em uma cadeira. Sentiu uma mão macia segurando sua cintura, mas não teve forças para virar-se e ver o dono daquela mão. Teve a sensação de estar segura ali, naqueles braços que agora envolviam sua cintura. No momento em que viu as cicatrizes naqueles braços, sentiu a respiração dele em sua nuca. Sorriu. Sabia que havia encontrado a pessoa certa, mas não sabia o porquê. Virou-se: ele sorria e olhava com curiosidade para ela. Conversaram, seu nome era Marcelo e ele a estava observando desde a hora em que chegou lá. Tinha a impressão de que já a conhecia e tinha ido atrás dela justamente para perguntar isso quando ela sentiu-se mal. Ela o agradeceu e disse que o mal-estar já havia passado. Ocuparam uma mesa vazia e continuaram conversando animadamente noite adentro; ela até esqueceu as amigas, que saíram dali sem dizer palavra para não atrapalhar o momento dela. Ele a levou para a casa dele, passaram o resto da noite juntos. A primeira noite do resto da vida de ambos, que a partir dali se tornou uma só vida.
03 janeiro 2007
Nhoque da sorte
- Então, ela vai fazer o nhoque da sorte e tals pra ter grana. Tava vendo num site.
- Não é só colocar dinheiro embaixo do prato e comer?
- Não. Tem que ficar em pé, comer os sete primeiros, fazer sete pedidos... pelo menos, é o que diz lá no site. Aí depois ou você guarda a nota pra fazer no próximo dia 29, ou dá o dinheiro pra alguém, ou guarda ela mesmo e não usa.
- Ahn. Tava pensando: será que se a gente colocar um preservativo embaixo do prato, tem amor pro ano todo?
- Não sei, mas por via das dúvidas, vou colocar uma camisinha extra grande.
- Não é só colocar dinheiro embaixo do prato e comer?
- Não. Tem que ficar em pé, comer os sete primeiros, fazer sete pedidos... pelo menos, é o que diz lá no site. Aí depois ou você guarda a nota pra fazer no próximo dia 29, ou dá o dinheiro pra alguém, ou guarda ela mesmo e não usa.
- Ahn. Tava pensando: será que se a gente colocar um preservativo embaixo do prato, tem amor pro ano todo?
- Não sei, mas por via das dúvidas, vou colocar uma camisinha extra grande.
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