23 dezembro 2009

Coisas que pedi pro Santa e que me fariam a mulé mais feliz de Popeland City neste Natal...

As óbvias:

1) Benicio del Toro batendo na porta de casa e dizendo: "Tenho rum e tou entediado. Sabe fazer mojitos?"
2) Depender menos de gente.
3) Um panda de estimação e uma plantação de bambu imensa.
4) Uma garrafa de uísque e dois dedos de prosa com House.
5) Lenine cantando Dois olhos negros pra mim.

As não tão óbvias:

1) Hemingway sentado na beira da minha cama descrevendo uma tourada.
2) Viver num livro de Scott Fitzgerald.
3) Bendrix ser meu amante.
4) Uma noite com Humprhey Bogart.
5) Estar em um bar vendo Ella Fitzgerald e/ou Nina Simone cantando ao vivo.

As ridículas de tão óbvias:

1) Ele - numa bandeja de prata.
2) Quietude de espírito na beira da praia em Ubas com uma garrafa de Chandon.
3) Caribe com biritas coloridas.
4) Me tornar uma mulher-cordeiro. Ou pelo menos, ter um gênio menos difícil.
5) Kelly Jones cantando Help me(she's out of her mind), ou Liam Gallagher cantando Don't go away, ou Chris Cornell cantando When I'm down só pra mim.

... mas, em todo caso, me contento com um 2010 mais tranquilo.

13 dezembro 2009

Sanha

Ali, sentada diante dele, não sabia o que dizer. Ironicamente, no dia em que eu deveria falar todas as coisas que imaginei, pensei e ensaiei durantes anos, só conseguia balbuciar algumas palavras sobre o tempo e fazer gracinhas sem sentido algum. Meus joelhos doíam por conta de um tombo que havia levado há alguns minutos, minha cabeça latejava e o clima tenso me fazia pensar que tudo que o eu queria era realmente desaparecer daquele lugar. Desaparecer pra ele num piscar de olhos e não aparecer nunca mais.

Havia me imaginado diante dele em mil situações, mas nenhuma delas sequer chegou perto da sensação real daquele momento, o misto de angústia, raiva, felicidade, a tensão insuportável no ar. A vontade de atrair num abraço apertado e beijo lascivo combinada com a vontade de repelir num tapa, num empurrão. Nossa história como um filme em questão de segundos; os dois últimos anos martelando incensantemente no cerébro e pulsando em cada centímetro da minha pele: o clímax das discussões iam e voltavam na minha mente enquanto eu olhava fixamente nos olhos dele, sorria e batia as unhas compridas e vermelhas na mesa daquele bar, num ritmo irritante. Dizia coisas sem nexo, sentindo a tensão e o desconforto dele durante as respostas, os desvios de olhar. Nunca uma simples coca-cola me pareceu tão intragável e rascante como naquele momento; o primeiro trago me fez ter vontade de jogar todo o resto nele e sair dali sorridente. A vingança mesquinha por aquelas sensações.

Fecho os olhos e não consigo me lembrar da cor exata de seus olhos e nem do formato das mãos, mas me lembro do sorriso... talvez porque nunca o tivesse visto. Não me lembro exatamente do que conversamos - só me vem a mente frases soltas, sem sentido. Mas todas as sensações vêm à tona como se estivéssemos naquele encontro ainda: o frio percorrendo a espinha, pensando que se pegasse naquelas mãos, talvez não tivesse mais volta pro bem ou pro mal. O esforço sobre-humano para parecer minimamente equilibrada e fria. O desconforto nos olhos dele. O desejo tenso em cima daquela mesa de bar. Meu desequilíbrio ao perguntar se ele ainda brigaria só um pouco comigo para me fazer feliz. O riso sem graça dele. As unhas batendo na mesa. Sanha de possuí-lo e ao mesmo tempo, sair dali. Esquecer, apagar, fingir que nunca existiu. Cabeça e joelhos latejando. As mãos e olhar parados dele. Vontade inquieta de sentir aquelas mãos. Partir.

O tempo dele e aquele encontro haviam acabado. Despedida insossa. Abraço apertado, beijo. Vontade de não soltar, de beliscar sua barriga, apertar suas mãos. Desconforto. Querer desmaterializar. Outro beijo, um não. Pergunta estúpida sobre eu estar bem. Dizia mentalmente que não enquanto sorria. Sanha pelo proibido naquele exato momento. Tensão. Algumas outras frases de encerramento. Simplesmente dar as costas e ir. Não consegui. Ele se foi pisando duro, sem olhar para trás e eu sorria. Agora que realmente havia partido, o queria sem repelir. Quanto a ele, nunca saberei suas sensações sobre aquele encontro. Talvez também fosse atrair, repelir, sumir. Talvez fosse só o desconforto. Talvez fosse só o desejo.

25 outubro 2009

Ardor

Sentiu o tecido da roupa colar em suas costas e acompanhando, um ardor que ia penetrando na pele até chegar na medula. Sentia sua carne queimar e essa sensação foi se espalhando pelas entranhas, que derretiam quase que instantaneamente. Se tornou pastosa por dentro, e antes que conseguisse ver quem tinha lhe causado tanta dor ou esboçar qualquer reação, percebeu sua pele sua ficando pastosa também. Sentia-se desesperada e impotente, e, quando tentou gritar, não conseguiu. Já havia se tornado apenas uma poça de cera derretida espalhada naquele chão frio.

No outro dia, o funcionário da limpeza olhava aquela quantidade de cera espalhada no chão e amaldiçoava quem havia feito aquilo... gente desocupada, pensava.

O causador daquilo, ao passar por ali e não ver nem mais o vestígio da cera no chão limpo, chorou. Nunca mais a veria.

13 outubro 2009

Tratado rolístico do amor

- Ele disse que eu sou a personagem daquele filme, "Dez coisas que eu odeio em você".
- Hahahahaha!
- A durona que é conquistada pelo carinha lindo que morreu, o que fez o filme do caubói veado...
- Hahahaha... sabe em que é baseado o filme?
- Não...
- Em "A Megera Domada"... hahahaha.
- Sério? Nada como uma rola pra domar uma mulher, né?
- Hahaha. Sério mesmo.
- Coisa machista que eu acabei de dizer...
- Ô, menina, prestenção... todas as outras coisas que domam uma mulher a gente tem... então só sobra a rola mesmo pra nos domar... disfarçada da porra de amor.

26 setembro 2009

Histórias para a posteridade

"Vovó se drogava, mas se formou!"


Sim, eu pretendo um dia dizer isso aos meus netinhos, quando eu estiver mostrando a eles o meu álbum de formatura em direito. E do alto dos meus sessenta e poucos anos (ou mais), isso vai me ser permitido sem culpa, e também, até lá, os pais deles já vão estar acostumados o suficiente com as excentricidades da própria mãe para não encher o saco quando nas minhas crises de sinceridade, contar pras crianças como é que vovó se divertia na pacata Aparecida.

Calma, gente! Vovó não se drogava e fazia sexo com estranhos em lugares suspeitos! Mas a vovó aqui já vai ter feito coisas o suficiente para que esse tipo de história não interfira no julgamento que fazem dela... o tal do nome a zelar(pelo menos eu espero que não).

Uma das melhores coisas no envelhecimento é o discernimento de que suas experiências não te tornam uma pessoa melhor ou pior, elas simplesmente fazem parte de você, especificamente de quem você é. Nesse sentido, com a maturidade e o passar dos anos, conseguimos rir mais de nós mesmos e encarar nossas bad trips com mais leveza e menos vergonha de admitir os próprios erros. E aí a coisa se torna divertida porque o julgamento alheio se torna secundário(quando se torna alguma coisa), e o resto não importa. E eu não sei vocês, mas eu pretendo rir muito contando minhas histórias estranhas pros meus netos, mesmo que seja sob protestos dos pais deles("Vovó está é gagá, não sabe o que diz!"). Se eles vão rir ou vão conseguir absorver alguma coisa positiva, já é outra história, que provavelmente eles vão contar na posteridade pros filhos ou netos deles.

18 setembro 2009

Miopia d'alma?

Sabe quando você vê um conhecido na rua e dá aquele mega aceno e a pessoa nem tchuns? E você fica ali, naquele vácuo, rezando pra que ninguém te ache louco e morrendo de vergonha...?
É, pois é. Essa sensação é horrível.

Porém, muito pior é você demonstrar carinho pra alguém que não tá nem aí. O ridículo é cem vezes pior porque, bom, se uma pessoa não te vê, ela simplesmente estava distraída, ou é míope, ou tava longe ou outras mil coisas bobas. Ela podia até estar te ignorando, mas acaba por não fazer diferença, porque você nunca vai saber se foi esse o caso.

Agora, quando alguém simplesmente ignora um carinho seu, bom, é miopia de sentimentos, na melhor das hipóteses. Você tá ali que nem idiota se desmanchando pela pessoa e ela tá fazendo cara de paisagem... ou pior, finge que não é com ela e desconversa. Isso geralmente me faz sentir duplamente ignorada: a pessoa ignora uma atitude e isso leva a seguinte: ignora uma atitude sua, ignora você como um todo. Ou seja: você, nada ou uma samambaia surtem o mesmo efeito sobre aquele ser tirano e sem coração. E aí tem o vácuo, que nesse caso acaba por ser um abismo entre o ser e você.

E inexplicavelmente, nessas horas eu me sinto ri-dí-cu-la, fora a sensação de estar perdendo meu tempo e a vontade de nunca mais trocar palavra com a pessoa. Odeio descaso com o sentimento alheio. Odeio.

E vocês, o que me dizem?

13 setembro 2009

Lover, you should've come over*

Não, seja sensato... acabou. Naquele exato momento em que desliguei o telefone. No momento em que o silêncio e a distância se fizeram mais necessários do que qualquer palavra/sentimento dita/expressado entre nós.
Acabou... a partir do momento em que decidi que podia andar sozinha, sem você como sombra, me rondando, cercando onde quer que eu fosse. Estando no meu pensamento, entre minhas companhias, entre meus lençóis com outros.
A partir daquele momento foi tarde para qualquer coisa - nenhum de nós jamais poderia ter partido para onde quer que fosse sem o outro. E partimos, não? Sobrevivemos... outra vida, outras pessoas, outros lençóis.
Eu não devia sentir a sua falta, mas senti. Muito, aliás. Nos meus dias bons... nas noites solitárias, nas situações corriqueiras. Eu precisava que você estivesse ali comigo... fazendo o que quer fosse, mesmo que isso fosse você mordendo meu pescoço e dizendo que era pra eu relaxar, que tudo ficaria bem.
Num desses dias de saudade, procurei você, na esperança de reencontrá-lo como antes e seguir em frente. E talvez porque me amasse, você voltou. E tivemos dias bons, dias ruins e apenas dias. 
Tive uma sensação de felicidade estranha - você era meu de novo. O que eu não percebi foi que - sim, talvez você seja meu, porém, eu não sou mais sua, mesmo me jogando descaradamente nos seus braços. Porque talvez, você possa até ser o mesmo que amei, mas eu sou outra. E isso torna tudo diferente: a sensação nunca mais vai ser a mesma. Porque o talvez-você-ainda-seja-o-mesmo vai se transformar em uma sombra e, por mais que eu permaneça com você, somos outros, e diferentes. Não vai adiantar se esforçar, a sensação de estar um com o outro nunca mais vai se repetir. E por mais que eu tenha medo de me arrepender, o melhor a fazer é ir embora. É te deixar e não voltar.
Sim, somos jovens, e por isso mesmo... temos a vida toda pela frente para sermos quem quisermos... com outros. Por favor, vá. E feche a porta. Tudo tem um fim, por mais que pareça que nunca vai acabar.






* - Jeff Buckley.

10 setembro 2009

Andar na montanha russa

Sou uma pessoa com o espírito incrivelmente livre e como consequência disso, um tanto aventureira (paro por aqui para um adendo: aventureira NÃO é sinônimo de puta - embora o lado vulcão porra-louca, sou caretésima, faço sexo por amor, aprecio um romance básico, gosto de flores e me apaixono perdida e monogamicamente). Mas, como todo ser passional e livre, tendo a me jogar onde acho que vai ter adrenalina - sou viciada em viver, sentir, me emocionar. Encaro cada pessoa como uma sensação nova a ser descoberta, provada - e vou fundo.
A questão é - sou assim. Na verdade, eu queria mesmo era ser um pouco mais o vulcão que a ala masculina geralmente pensa que sou(descobri recentemente que a ala feminina também pensa da mesma maneira, para o meu desespero). O que nem todo mundo sabe, talvez só os mais próximos, é que tenho cuidado em lidar com as pessoas, sou extremamente responsável por todo tipo de sentimento que cativo(seja uma paixão avassaladora ou um odiozinho básico ou qualquer outra coisa que envolva mais um), e me recuso expressamente a ser vítima em qualquer situação(aliás, acho que se fazer de vítima das pessoas/circunstâncias é uma fraqueza moral quase imperdoável). E é aí que entra o ponto: ultimamente tenho achado incrível a falta de responsabilidade alheia no trato com o sentimento dos outros. As pessoas tentam se relacionar sendo omissas, mentindo e expondo os outros a situações desncessárias. Sem dar ao outro ao menos o direito de escolha, de a pessoa saber ou não se quer andar na montanha russa. E eu realmente acho isso uma falta de senso do caralho, pra não dizer que também não deixa de ser uma falha de caráter. Ou, muito pior, as pessoas simplesmente se jogam sem pensar em nada e depois se fazem de vítimas de uma situação que elas mesmas criaram.
E observando e vivenciando esse tipo de coisa(quero me blindar com as roupas de Jorge), além da revolta básica que me faz ter vontade de esganar alguém, eu só consigo pensar "Para essa porra, que eu quero descer!". E bate um desânimo generalizado em relação aos seres humanos. E ao mesmo tempo, isso me dá ânimo, porque como boa aventureira(e pessoa doentiamente otimista) que sou, sempre há sensações novas a serem descobertas. E sempre haverão sensações verdadeiras, mesmo que elas estejam escondidas no pote no final do arco-íris.
É, é isso. Precisava falar.

09 setembro 2009

21 junho 2009

(In)dependência

Lígia só queria dormir naquela tarde fria e chuvosa, e assim fazia quando foi despertada pelo choro e desespero de Sabrina ao telefone. Quase histérica, ela lhe contava que policiais haviam trazido a notícia de que Paulo estava morto, e que elas precisavam fazer algo a respeito, caso o corpo encontrado fosse realmente o dele. Ali, deitada, sentiu um estupor tomar-lhe o corpo e a mente: queria fazer algo, queria voltar a dormir, mas a única reação que conseguiu esboçar foi ficar com os olhos fixos na parede branca do quarto, alheia a tudo, pensando em Paulo morto.

Quando deu por si, decidiu que era hora de levantar e reagir, e vestiu-se para resolver o que fazer juntamente com Sabrina. Enquanto vestia uma calça e jaqueta pretas, pensava que talvez pudesse ser verdade, talvez Paulo estivesse mesmo morto, talvez tivesse merecido morrer, talvez não… sua mente andava em círculos.

Chegando à casa de Sabrina, encontrou-a na sala, aos prantos, transmitindo o ocorrido à Neide, sua irmã, pelo telefone. Foi ter com o marido dela, Roberto, na cozinha, que explicou detalhadamente os acontecimentos daquela manhã enquanto tomavam um café e fumavam. Lígia ouvia tudo em transe; aquilo não estava acontecendo com ela, Paulo não devia estar morto, não assim. Saiu do transe quando Sabrina apareceu, mais calma, perguntando o que fariam a respeito; discutiram o que fazer e, depois de conseguir falar com Júnior, ficou decidido que Neide ficaria com Roberto e as crianças, enquanto elas e Júnior viajariam até Ubatuba para reconhecer o corpo. Não concordava com a ida de Júnior, porém nada pôde fazer diante da insistência de Roberto, que dizia que era melhor ter a companhia de um homem, mesmo que fosse o Júnior. Em seu íntimo, ninguém e Júnior era a mesma coisa, afinal, ele só era uma presença física… e ela pensava que a presença talvez compensasse a falta de todo o resto naquele ser. Era fraco de espírito, de caráter, não tinha personalidade, tampouco alguma espécie de atitude diante das coisas. Um maricas. Mas iria com elas como elemento figurativo, fazer o quê? - já estava decidido. Resignou-se e foi checar e abastecer o carro, enquanto o aguardavam.

Ambas já estavam demasiadamente aborrecidas quando Júnior chegou. Sabrina reclamou da demora e foi ter com aquele estafermo, enquanto Lígia se despedia de Roberto, garantindo que Sabrina ficaria bem, e que tomaria todas as providências necessárias em relação a Paulo. Isso se fosse o Paulo mesmo… pensava, dando a partida no carro.

Durante a viagem pouco conversaram. Júnior vez ou outra balbuciava algo sobre Paulo e Sabrina parecia absorta em sua tristeza. Lígia reclamava do frio e da chuva que insistia em não cessar; vez ou outra soltava alguma pérola do seu humor mordaz sobre Paulo, relembrando histórias. Sabrina ria, porque apesar da desgraça, o humor de Lígia era assim e ela também sofria; Júnior ria também, mas ria sem saber do quê. Júnior era assim.

Quando estavam na altura de São Luiz do Paraitinga, Lígia decidiu parar o carro em um posto, esticar as pernas, tomar um café e fumar mais um cigarro. Enquanto Júnior e Sabrina comiam e conversavam, ela fumava e pensava em Paulo, em tudo que havia vivido com aquele homem. Ele costumava ser sempre o mais animado, ria de tudo, e era querido por todos. Na verdade, as pessoas nutriam um misto de pena e amor por ele, dado o seu comportamento destrutivo, vícios, vida errante e temperamento dócil. Para todos, era o típico caso de pessoa que só fazia mal a si mesma. Menos para ela, pensava. Conhecia bem o lado sombrio de Paulo. E realmente desejava que ninguém mais tivesse conhecido, ou sequer desconfiado de que talvez ele existisse. Quando pensava nisso, foi interrompida por Júnior dizendo qualquer asneira. Seu cigarro havia terminado, era hora de voltar para a estrada e descer a serra. E a chuva não dava trégua, provavelmente pegaria neblina na descida.

Quando chegou finalmente na descida da serra, não havia chuva nem sequer neblina. Só a pista ainda molhada e o tempo um pouco mais frio. Desceu sem problemas, sem piadas, sem risos. Só com o silêncio dentro daquele carro. E o espectro de Paulo rindo no espaço que havia no banco de trás. Rindo para ela, rindo dela - mais uma vez ele impunha sua vontade e ela nada podia fazer.

Já em Ubatuba, Sabrina foi indicando à Lígia que direção tomar para encontrar o restaurante de Lucas, patrão e amigo de longa data de Paulo, que havia notificado a polícia sobre seu falecimento, a fim de que encontrassem sua suposta família.

Não demoraram muito para achar o local, e foram ao encontro de Lucas. Nesse momento, Lígia caiu em si de que o talvez havia se convertido em uma verdade. Lucas sabia muito sobre Paulo, e contou sobre os últimos tempos dele por aqueles lados, o vício em cocaína e bebida; o fato de Paulo dizer que não tinha uma família, somente uma filha no Canadá que ele não conhecia e uns parentes distantes; as noites que passou na rua; a passagem por uma clínica de reabilitação; sua redenção quando se encontrou em uma igreja evangélica depois da temporada na clínica. Contou também que Paulo voltaria a trabalhar para ele naquele dia, não fosse o acontecido. Ele havia conversado com Lucas na noite anterior e tinha acertado tudo para começar no dia seguinte na gerência daquele estabelecimento. Feito isso, foi para a casa de um amigo que também trabalhava para Lucas a fim de dormir. E assim o fez. Durante a madrugada, o amigo ouviu um barulho estranho vindo da cama onde Paulo dormia e o chamou. Diante da negativa ao chamado, levantou-se e acendeu a luz. Deparou-se com Paulo envolto num cobertor, sentado na cadeira ao lado da cama, com o rosto e corpo paralisados. Estava morto, teve um infarto fulminante.

Sabrina e Júnior ouviram tudo que Lucas disse estupefatos, e Sabrina contou a verdade a Lucas. Que Paulo tinha deixado os irmãos e o resto da família há dez anos e não fazia questão de procurá-los e muito menos deixava que eles o encontrassem. Só aparecia quando e para quem queria. Sabrina disse que não gostava, mas respeitava o direito do irmão. Chorou quando soube do vício e da reabilitação. Lígia tentava confortá-la, explicando que foi uma escolha dele. E Júnior observava a avenida da praia com o rosto inexpressivo de sempre.

Estava quase anoitecendo quando Lucas explicou a localização do necrotério onde estava Paulo e fez umas últimas recomendações. Os três seguiram em direção ao necrotério. E Lígia só pensava em Paulo. Morto. Aqueles olhos negros sem vida, o sorriso e o riso paralisados. Morto. Paulo, o homem que mexia com o que ela tinha de pior dentro de si. Que sugou muito do que ela tinha de bom e a tornava cruel, mesquinha, mentirosa, suja. Que nutria uma paixão doentia por ela e que a seu modo, a fazia corresponder. Tudo isso com aquele olhar petrificante e sorriso perverso. Quantos anos havia desperdiçado com aquele homem? Quantos homens depois dele havia punido, transferindo o ódio que sentia por Paulo a eles? Quantas vezes aquele homem conseguiu dominá-la e deixá-la a mercê de seus caprichos? E agora ele estava morto. E ela não conseguia esboçar nenhuma reação diante disso. Paulo… o homem que a transformou naquele espectro de mulher, morto. Parecia tudo muito surreal. E Lígia se calou, não riu, não sentiu. Só queria ver Paulo. E foi sem ouvir ou responder a ninguém até o necrotério.

Chegando lá, foram identificar o corpo. Lígia olhava tudo com uma curiosidade doentia, nunca havia passado por isso; enquanto Sabrina chorava e rezava para não ser Paulo, esperando um milagre. Júnior não esboçava reação ou sentimento, estava lá apenas para cumprir uma mera formalidade.

Foram levados até a geladeira onde se encontrava o corpo por um funcionário, que falava e explicava tudo com muita calma e naturalidade. Lígia pensava em quantas vezes ele já deveria ter feito isto, enquanto ele abria a geladeira calmamente. Puxou a gaveta onde se encontrava o cadáver, devidamente colocado dentro de um plástico azul. Quando perguntou se podia abrir o saco para mostrar o cadáver, Sabrina segurou com força no braço de Lígia e assentiu com a cabeça, enquanto Júnior se afastava um pouco mais das duas na tentativa de talvez sumir dali.

O cadáver que se encontrava naquele plástico era Paulo. Os olhos negros, um sorriso torto decorrente do infarto. Os cabelos escuros e já ralos, a pele branca, o peito todo costurado com pontos grandes decorrentes da necropsia. Em nada lembrava o Paulo, sempre sorridente, animado. O Paulo que contava piadas. O Paulo dos amigos, carinhoso, leal e extremamente cordial. O Paulo de Lígia, doentio, mesquinho, vil. O Paulo de Sabrina, irmão querido e desajuizado. O Paulo de Júnior, que nem se importava, só não queria estar ali. Era só mais um número, um pedaço de carne gelada e que iria apodrecer, que tinha sido registrado como Paulo. Só isso.

E diante da situação, Sabrina chorou, a dor pela perda do irmão era lancinante. Nos braços de Lígia, soluçava e apertava seus braços. Júnior chorou também, um dia iria morrer, e sentiu medo. E Lígia consolava Sabrina, pensava que Paulo estava morto; e diante do sofrimento sincero de Sabrina, começou a chorar. Não sentia dor em ver Paulo morto, sentia dor em ver Sabrina sofrer e sofria junto com Sabrina. Paulo morto e no inferno devia estar olhando as duas, pensava. Devia estar rindo e se acaso topasse com Lígia naquele momento, sorriria para ela. Talvez a fizesse novamente escrava de seus desejos. E no meio da dor, Lígia sorriu. Finalmente estava livre de Paulo. Diante do corpo sem vida, havia se tornado de novo mulher. E uma mulher boa, doce, meiga. Livre.

20 junho 2009

16 abril 2009

Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida...

… preciso demais desabafar…


Você já se odiou por gostar de alguém?

Não, não… não estou me referindo à aquela raivinha que surge quando a gente descobre que o amorzinho estava numa festa com mais 532 oferecidas, sendo que tinha dito que ia ficar em casa porque estava com dor na ponta da orelha direita, e você para e pensa em como você é estúpida.

Estou falando de ódio mesmo, daquele tipo que corrói as entranhas. Beeem passional mesmo. O que faz você se sentir - além de estúpida- miserável, pequena e dependente do amorzinho. Independente de qual atitude ele tome, do que ele faça, do que ele te diga. Você simplesmente não deve gostar dele. Porque ele não presta, porque ele tem outra, porque ele existe, porque te faz sofrer. E você não merece.

Bom, nesse ponto você para e pensa que isso não é amor, é patológico. E eu não vou discordar. Cada um ama como aprende, ou como a situação convém ou qualquer outra explicação. Se é que tudo é explicável nessa vida louca.

Mas o que eu quero saber é… o que é que se faz nesse caso? Reza pra encontrar um outro alguém, pra esquecer o amorzinho, pra virar lésbica? Apela pra tudo que é santo, crença, simpatia? Permanece na situação… ou tem uma força sobrenatural e chuta o balde?

Confesso que nunca soube direito o que fazer, como lidar com isso. Sempre foi humano demais para que conseguisse lidar. Mas creio que o tempo se encarrega de nos dar um pouco de sabedoria ou coisa parecida para que consigamos superar. Acho que em determinado caso, consegui desmistificar o sentimento. Se é que isso é possível.

Consegui descobrir o motivo do ódio e exorcizar do meu jeito torto. E descobrir que convivência, dividir muita coisa, ter com quem contar, rir das mesmas coisas, ter o mesmo humor e outras afinidades não é amor. Por mais que haja desejo. Porque por mais que não tenha explicação, o amor são dois. E quando ocorre de ser um só, é masoquismo. E nada é eterno. Então surgem duas coisas: resignação e vida pedindo passagem. E lá vou eu de novo.



13 abril 2009

Gilda

Às vezes me pego pensando em Gilda… em toda sua volúpia. Lembro-me do flerte de Gilda e da primeira vez em que tocou meus ombros. Era dia de festa, e me tocou para que me voltasse para si e sorrisse. Foi a primeira vez em que prestei atenção naquela figura e levei dias para digerir todas as impressões de um simples toque.

Gilda me fez seu objeto de cobiça e passou a deixar isso claro. Sorrisos, conversas, olhares e toques. Não conseguia me ver sem me tocar ou beliscar. Sem se oferecer descaradamente, sem perguntar onde me escondia. Sem me fazer corar ou estremecer.

Passei a encontrar Gilda em ambientes boêmios, como deveria ser. E nesses ambientes, era magnetismo puro – combinava charme, exuberância, inteligência e uma leve arrogância. A arrogância natural de quem geralmente é o objeto do desejo alheio – nesse caso, do meu também. Observava em transe todos os seus movimentos e a maneira como se dirigia a mim, sabendo que mais cedo ou mais tarde, me faria ser sua.

Numa dessas noites não me deixou ir embora: me segurava pela cintura e insistia no que eu também queria, mas me negava – sabia que seria um caminho sem volta. E continuei negando. E vieram outras noites regadas à vinho, risos, joguinhos, insistência e àquele corpo que exalava sexo. Lembro-me de ambos ébrios, rindo… citava algum trecho de Pessoa no meu ouvido enquanto eu ria. Apertava minha cintura contra a sua toda vez em que me despedia e me pegava pelos cabelos, na esperança de que seu beijo me fizesse mudar de idéia. Não entendia como sua caça conseguia ser arredia a ponto de não fazer diferença qualquer coisa que fizesse, qualquer lugar que apertasse.

Durante nossa convivência diurna, Gilda era o sorriso lascivo, o rosto se oferecendo para um beijo, as mãos me apertando a cintura nos corredores que partilhávamos, o olhar fixo e desconcertante quando estávamos conversando com mais pessoas. O riso debochado quando precisava de sua ajuda, como maneira de punição por não sucumbir.
Seguimos assim, entre noites ébrias e dias tensos. E como é permitido a todos os mortais, um dia sucumbi ao seu capricho. E pertenci à Gilda por uma noite. E nessa noite, Gilda deixou de ser um mito para ser o homem. O homem a altura do mito. E eu deixei de ser o objeto de caça para ser apenas eu, mulher.

07 abril 2009

Fôlego

E há determinados momentos na vida em que a única coisa que se tem vontade de fazer, é parar de respirar. Não o parar de respirar como fim da existência, mas para fazer o tempo parar naquele momento.

E parar, nesse sentido, significa repensar. Ter alguns flashes e ver tudo o que passou. Conseguir absorver pessoas, situações, coisas. Boas e ruins. Tudo isso inerte, com o tempo estático, esperando por você. Esperando que talvez você consiga absorver e levantar. Continuar.

Ainda repensando e absorvendo, talvez você consiga enxergar uma saída, ou um caminho novo a ser trilhado. Uma maneira de fazer as coisas diferentes dali pra frente. Recomeçar.

E quando você decide recomeçar, o tempo volta a andar. E você, respira devagar, se levanta. Abre os olhos. Dá os primeiros passos. Se depara com situações, pessoas e coisas do passado de maneira intensa. Tudo volta parecido como era antes.

E agora? Você para de novo?

29 março 2009

Certas coisas...

“And it makes me so angry
To know that the flame still burns
Lord, why can’t I get over?
Man when will I ever learn?

Old love, leave me alone
Old love, just go on home…” *

E depois de quase um ano, eu posso dizer que sim, achei que estava curada. Mas o tempo só me provou uma coisa: não dá pra passar incólume por certas coisas, pessoas e afins. Invariavelmente vamos levar qualquer marca… seja uma lembrança boa ou uma ferida que parece que nunca vai cicatrizar. E às vezes parece que é necessário se machucar mais para que ela cicatrize. E aí sim, se curar. E ficar bem.




** Old love – Eric Clapton

06 janeiro 2009

Delicadeza feminina

E eis que eu estava parada em frente a uma lan house fechada em Ubas, esperando uma certa alma sair de lá às duas da manhã, quando surge um sujeito me olhando como se eu fosse uma peça de açougue, num misto de interesse e curiosidade…

- Moça, tá fechada…

- Sim, eu sei que tá fechada…

- Ah, tá. Boa noite, então. Qual seu nome?

- Ah, boa noite. Some daqui, vai pro inferno!


Ele me olhou assustado e entrou no carro… tenho a impressão de que ele nunca mais vai abordar nenhuma mulher parada em frente à qualquer lugar no meio da madrugada…